International Day for the Elimination of Violence Against Women | Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres

25 November

To mark the International Day for the Elimination of Violence against Women, we chose to publish a poem that would give visibility to the work of other women. Take a look at our website!

25 de Novembro

Para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, optámos por publicar um poema que permitisse dar visibilidade ao trabalho de outras mulheres.

Ana Cansado & Emellin de Oliveira


Lar[1]

“ninguém sai de casa a menos que

a casa seja a boca de um tubarão

você só corre para a fronteira

quando vê a cidade inteira correndo também

seus vizinhos correndo mais rápido que você

fôlego sangrento em suas gargantas

o menino com quem você foi à escola

que te beijou e deixou tonta atrás da velha fábrica de latão

está carregando uma arma maior do que o corpo dele

você só sai de casa

quando a casa não te deixa ficar.

ninguém sai de casa a menos que a casa te persiga

fogo embaixo dos pés

sangue quente na sua barriga

não é algo que você já tenha pensado em fazer

até que a lâmina queimada ameaça entrar

no seu pescoço

e mesmo assim você ainda carregou o hino sob

seu fôlego

só rasgou seu passaporte nos banheiros do aeroporto

soluçando enquanto cada pedaço de papel

deixava claro que você não ia mais voltar.

você tem que entender

que ninguém coloca seus filhos em um barco

a menos que a água seja mais segura que a terra

ninguém queima suas palmas

sob trens

embaixo de vagões

ninguém gasta dias e noites no estômago de um caminhão

se alimentando de jornais a menos que os quilômetros viajados

signifiquem algo mais do que jornada.

ninguém rasteja por debaixo de cercas

ninguém quer receber surra

piedade

ninguém escolhe campos de refugiados

ou revistas íntimas em que seu

corpo fica doendo

ou a prisão,

porque a prisão é mais segura

do que uma cidade de fogo

e um guarda de prisão

na noite

é melhor do que um caminhão

de homens que se parecem com seu pai

ninguém conseguiria suportar

ninguém conseguiria digerir

ninguém teria uma pele tão dura

vão embora negros

refugiados

imigrantes sujos

requerentes de asilo

sugando nosso país até secá-lo

macacos com as mãos abertas

eles cheiram estranho

selvagens

bagunçaram o país deles e agora querem

bagunçar o nosso

como as palavras

os olhares sacanas

escorrem pelas suas costas

talvez porque o golpe é mais leve

do que um membro decepado

ou as palavras são mais macias

do que catorze homens entre

as suas pernas

ou os insultos são mais fáceis

de engolir

do que cascalho

do que osso

do que o corpo do seu filho

em pedaços.

eu quero ir para casa,

mas a casa é a boca do tubarão

casa é o tambor da arma

e ninguém sairia de casa

a menos que a casa tenha te perseguido até a praia

a menos que a casa tenha te dito

para apressar as pernas

deixar suas roupas para trás

rastejar pelo deserto

vagar pelos oceanos

se afogar

salvar

ter fome

pedir

esquecer o orgulho

sua sobrevivência é mais importante

ninguém deixa sua casa até que casa seja uma voz suada no seu ouvido

dizendo –

saia

fuja de mim agora

eu não sei o que eu me tornei

mas eu sei que qualquer lugar

é mais seguro que aqui.”

por Warsan Shire[2]


Home[3]

no one leaves home unless

home is the mouth of a shark

you only run for the border

when you see the whole city running as well

your neighbors running faster than you

breath bloody in their throats

the boy you went to school with

who kissed you dizzy behind the old tin factory

is holding a gun bigger than his body

you only leave home

when home won’t let you stay.

no one leaves home unless home chases you

fire under feet

hot blood in your belly

it’s not something you ever thought of doing

until the blade burnt threats into

your neck

and even then you carried the anthem under

your breath

only tearing up your passport in an airport toilet

sobbing as each mouthful of paper

made it clear that you wouldn’t be going back.

you have to understand,

that no one puts their children in a boat

unless the water is safer than the land

no one burns their palms

under trains

beneath carriages

no one spends days and nights in the stomach of a truck

feeding on newspaper unless the miles travelled

means something more than journey.

no one crawls under fences

no one wants to be beaten

pitied

no one chooses refugee camps

or strip searches where your

body is left aching

or prison,

because prison is safer

than a city of fire

and one prison guard

in the night

is better than a truckload

of men who look like your father

no one could take it

no one could stomach it

no one skin would be tough enough

the go home blacks

refugees

dirty immigrants

asylum seekers

sucking our country dry

niggers with their hands out

they smell strange

savage

messed up their country and now they want

to mess ours up

how do the words

the dirty looks

roll off your backs

maybe because the blow is softer

than a limb torn off

or the words are more tender

than fourteen men between

your legs

or the insults are easier

to swallow

than rubble

than bone

than your child body

in pieces.

i want to go home,

but home is the mouth of a shark

home is the barrel of the gun

and no one would leave home

unless home chased you to the shore

unless home told you

to quicken your legs

leave your clothes behind

crawl through the desert

wade through the oceans

drown

save

be hunger

beg

forget pride

your survival is more important

no one leaves home until home is a sweaty voice in your ear

saying-

leave,

run away from me now

i dont know what i’ve become

but i know that anywhere

is safer than here

by Warsan Shire


[1] Para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres optámos por publicar um poema que permitisse dar visibilidade ao trabalho de outras mulheres. A nossa escolha permite dar a conhecer o trabalho de Warsan Shire e também de Camila Santos Barros Moura, autora do blog onde encontramos o poema que reproduzimos a partir de https://migracoesemdebate.com/2022/02/23/eu-nao-sei-o-que-eu-me-tornei-mas-eu-sei-que-qualquer-lugar-e-mais-seguro-que-aqui/

[2] Warsan Shire é uma poetisa de origem Somali. Mais informação em https://pt.wikipedia.org/wiki/Warsan_Shire ou em https://writersmakeworlds.com/warsan-shire/

[3] Decidimos partilhar a versão em língua inglesa para que o poema possa ser lido por mais pessoas. Retiramos esta versão do seguinte endereço: https://www.facinghistory.org/resource-library/home-warsan-shire